Formação de professores para Educação Infantil: como ampliar repertório em uma infância atravessada por telas
Com 94% das crianças de 4 a 6 anos expostas diariamente a telas, formação docente ganha peso na criação de experiências com corpo, brincadeira, música e cultura popular
A exposição às telas já faz parte da rotina da maioria das crianças brasileiras na primeira infância. Pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Datafolha mostrou que 78% das crianças de 0 a 3 anos têm contato diário com dispositivos. Entre aquelas de 4 a 6 anos, o percentual chega a 94%. O levantamento foi realizado em abril de 2025 e ouviu 2.206 pessoas em diferentes regiões do país.
Para Flavio Aoun, da Brincartear, esse dado ajuda a colocar uma questão diretamente relacionada à formação de professores para Educação Infantil: o educador precisa de repertório para propor experiências que mobilizem corpo, voz, imaginação, escuta e participação. Música, histórias, brincadeiras, arte e cultura popular fazem parte das linguagens trabalhadas pela empresa com profissionais que atuam com crianças.

A preocupação não está em transformar o brincar em oposição à tecnologia, mas em garantir espaço para experiências que dependem de presença, movimento e relações entre as crianças. A própria Base Nacional Comum Curricular estabelece interações e brincadeira como eixos estruturantes da Educação Infantil e organiza essa etapa em campos de experiência relacionados, entre outros aspectos, ao corpo, aos movimentos, aos sons, à expressão e à imaginação.
Formação de professores para Educação Infantil precisa ir além da teoria
Conhecer uma atividade não significa saber conduzi-la. Uma brincadeira descrita em poucas linhas pode exigir que o professor altere o ritmo, perceba quem ficou de fora, modifique uma regra ou improvise diante da resposta das crianças.
Nas formações para educadores da Brincartear, os participantes experimentam as propostas antes de analisá-las. Cantam, brincam, narram, movimentam-se e constroem materiais; depois, observam o que ocorreu e discutem formas de adaptação para outras idades, espaços e situações.
Uma das experiências utilizadas nesses encontros é a Rima Rimando. Nela, o grupo participa primeiro da atividade e pode perceber, durante a própria vivência, como rima e ritmo envolvem linguagem, memória, coordenação, escuta e participação coletiva. A discussão pedagógica vem em seguida.
A intenção não é entregar uma sequência pronta para reprodução, mas ajudar o educador a entender o que sustenta aquela experiência.
Aoun trabalha com a ideia do professor como “brincante”. Na prática, significa que o docente não permanece apenas explicando uma atividade de fora: pode cantar, narrar, jogar e improvisar enquanto acompanha as respostas das crianças e faz os ajustes necessários.
A atuação da Brincartear já passou por instituições como Sesc, Unicamp e Teatro Oficina do Estudante, além de escolas e outros espaços educacionais e culturais. Esse histórico situa o trabalho de Aoun em ambientes diferentes e reforça sua participação no debate sobre repertório, arte e infância sem restringi-lo a um único formato de ensino.
Cultura popular amplia o que circula dentro da escola
O repertório do professor influencia diretamente aquilo que encontra espaço na rotina das crianças.
Cantigas, brincadeiras de roda, percussão corporal, dança, jogos musicais e manifestações tradicionais podem integrar o cotidiano da Educação Infantil sem ficarem limitados a projetos pontuais ou datas comemorativas. Nas propostas da Brincartear, esses elementos aparecem junto a música, movimento, construção de materiais, histórias e criação artística.
Uma cantiga, por exemplo, pode envolver ritmo e movimento; uma história pode incorporar objetos, sons e participação do grupo; materiais simples podem se transformar em brinquedos, instrumentos ou recursos narrativos.
A cultura popular, assim, deixa de ocupar apenas o lugar de tema a ser apresentado. Ela passa a ser vivida por meio do corpo, da escuta, da brincadeira e da criação.
Esse repertório ganha relevância em uma infância na qual referências culturais também chegam por vídeos, jogos, plataformas e conteúdos digitais. A escola pode ampliar esse universo ao oferecer contato com outras músicas, narrativas, formas de brincar e modos de expressão.
Educação antirracista também começa pelas referências escolhidas
A discussão sobre repertório envolve outra pergunta: quem aparece nas histórias, músicas, imagens e brincadeiras apresentadas às crianças?
Na Educação Infantil, práticas antirracistas podem estar presentes nas decisões cotidianas do educador, desde os personagens escolhidos para uma narrativa até as referências musicais, visuais e culturais levadas para o grupo.
A Brincartear trabalha essa frente por meio de experiências que reúnem jogos, histórias, música, dança e artes. A proposta aproxima o tema de situações concretas e permite observar quais referências estão presentes na rotina e quais permanecem pouco representadas.
A questão não precisa ficar restrita a uma atividade específica. Ela atravessa a composição do repertório da escola ao longo do ano e a diversidade de experiências oferecidas às crianças.
Inteligência artificial pode apoiar o adulto sem ocupar o lugar da experiência
A presença da tecnologia também pode ser pensada por outro ângulo. Se as telas levantam preocupações quando ocupam parte excessiva da rotina das crianças, ferramentas digitais podem ter uma função diferente quando usadas para apoiar o trabalho do educador.
Um exemplo citado pela Brincartear é a Criedu, ferramenta de inteligência artificial voltada ao apoio em tarefas como registro e planejamento. Nesse uso, a tecnologia atua sobre etapas de organização do trabalho docente, enquanto a interação com as crianças continua dependendo de presença, observação e participação do professor.
Essa distinção ajuda a evitar uma discussão simplificada entre tecnologia e brincadeira. A questão passa a ser onde a tecnologia entra e o que se espera dela.
Ferramentas digitais podem auxiliar o adulto em determinados processos. Já cantar com um grupo, conduzir uma roda, perceber que uma criança não entrou na brincadeira, alterar uma narrativa ou improvisar diante de uma reação inesperada continuam sendo experiências mediadas por relações humanas.
Repertório transforma planejamento em experiência
Os dados sobre exposição às telas tornam mais visível a necessidade de preservar outras formas de viver a infância, mas não oferecem sozinhos uma resposta para a escola. Essa resposta depende também do que os educadores conseguem propor.
Uma narrativa pode mudar quando o grupo perde a atenção e o professor acrescenta um som ou um objeto. Uma brincadeira corporal pode exigir outra regra porque as crianças participam de maneiras diferentes. Uma música pode começar pelo ritmo e avançar para movimento, criação e conversa.
O aprendizado de uma formação prática ganha sentido quando o educador consegue perceber o que determinada experiência mobiliza e criar outras possibilidades a partir dela.
Em uma infância na qual as telas já estão presentes desde os primeiros anos, investir na formação de professores para Educação Infantil também significa ampliar o repertório de adultos capazes de colocar em circulação música, histórias, brincadeiras, referências culturais diversas e experiências que dependem de algo impossível de automatizar por completo: a relação com as crianças.